domingo, 6 de maio de 2012

O serviço de meteorologia informa:



Na cidade alegre o tempo permanece estável, com pancadas ou escaramuças invernais esparsas e nuvens negras ameaçadoras que não passam de ameaças mesmo, infelizmente. No entanto, o clima é outro; agradável, frio, próprio para um sono bom, ainda que o astro rei brilhe sobre os dias, as manhãs de minhas caminhadas são frias e acompanhadas de garoa.

Já no Arraiá do Capim Guiné ou que nome tenha outra folhagem qualquer, o clima esquentou de vez. Chutaram o pau da barraca na falta de argumento convincente para a manutenção da festa, cuja defesa só se justifica por capricho, vaidade pessoal ou por interesses comerciais de estabelecimentos localizados na Praça Getulio Vargas. E por estes viés, a defesa dos comerciantes da praça, por razões mais que óbvias, prende, arrebenta, expulsa, apaga, deleta, esgrime uma arrogância própria de um autoritarismo caduco, mas de triste memória em nossa história recente. É a festa pela festa e estamos conversados.

Só que a defesa dos comerciantes da praça não contava com a bandeira de evangélicos unidos, brandindo contra a festa, tomando o espaço de reuniões, ameaçando com ações junto ao Ministério Público, manifestos, abaixo-assinados o diabo a quatro, aliás, Jeová a quatro.   

Se não há sensibilidade política e social para entender o drama que não é local, mas de quase a metade do estado, parte-se prá ignorância, pro quanto pior, melhor. Uma festa é apenas uma festa, o sofrimento e a dignidade das pessoas, dos animais não, vão bem mais além do que o mais mesquinho dos espíritos não possa alcançar.


 

Aqui é o país do futebol!


Um domingo de final de campeonato em vários estados. Na maior parte deles a previsibilidade de sempre; os grandes são finalistas enquanto alguma zebra aparece querendo estragar a festa da conquista de mais um título dos clubes tradicionais. Será assim no Rio Grande do Sul, onde o Grêmio foi limado da disputa do título, cabendo ao Inter e ao surpreendente Caxias a decisão. O mesmo ocorre em Minas onde o Cruzeiro vive um inferno astral e vai assistir e torcer contra o seu maior rival o Atlético, medir forças com o América.

Já em outros estados de visibilidade esportiva no futebol, dá-se o esperado sem qualquer surpresa, a não ser que a eliminação dos grandes paulistas, Corinthians, São Paulo e Palmeiras que deram o lugar ao Guarani para a disputa final com o Santos, possa ser considerado um acontecimento. No Rio vai-se de Fluminense e Botafogo, como poderia ser Flamengo e Vasco, jamais Bangu ou America finalistas, como se insinuou no inicio do campeonato.

Por aqui, até aos 42 minutos do segundo tempo, dava a impressão que o nosso rubronegro enfrentaria nas finais o seu xará de Vitória da Conquista, mas com um gol chorado, suado, estranho o Barcelona de Itinga, vai tentar após dez anos de ressaca, ser campeão de qualquer coisa. Vamos lá Vitória, sempre Vitória!

Foto: Torcida do Vitória

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Na Arena Fonte Nova



O adiantado estágio das obras da Arena Fonte Nova, com o término previsto para dezembro/12, já se consegue visualizar a localização da arquibancada que sempre ocupei na antiga Fonte Nova e que espero manter caso alguns jogos do Vitória sejam programados prá lá. Os custos de manutenção do novo estádio implicarão em taxas cobradas dos clubes que nem sempre irão compensar a realização de seus jogos lá, principalmente para quem tem estádio próprio como o Barradão, pelo Vitória. Além dos contratos com publicidade que o Vitória tem com várias empresas através de placas em volta do estádio e da exclusividade com determinada cervejaria para exploração dos bares existentes no Barradão, por certo serão entraves que dificultarão a presença do rubronegro no novo estádio.

A Arena Fonte Nova manterá a abertura que havia na estrutura antiga, frente ao Dique do Tororó, dando o formato de uma ferradura e permitindo que se identifique o posicionamento de onde sempre assisti aos jogos do Vitória, sempre na parte inferior do estádio ao lado direito do dique. Próximo aos bares e a uma porta de saída ou de emergência, nunca se sabe. Fico a imaginar o conforto, a organização, a comodidade de acesso e escoamento aos finais dos jogos, ainda que pese a sombra maligna das torcidas organizadas, “Bamor” à frente.

"Pinga ni mim, pinga ni mim"



Em sua recente visita aos Estados Unidos a Presidente Dilma Rousseff levou como mimo ao seu colega Barack Obama algo que é tão caro aos costumes nativos, como uma garrafa de pinga, da branquinha. A presidente deve ter sido orientada quanto ao presente a ser dado ao seu colega, independente do produto ser eminentemente uma preferência nacional, o Obama tem um jeitão de quem já ralou muito cotovelo em balcões de botequim, sendo assim já foi ou é da comunidade.  

A pinga escolhida para presentear o presidente americano foi uma garrafa de Velho Barreiro, que ganhou uma inesperada alavancada em sua marca, pela promoção, já que qualquer caipirinha que se preze pede companhia mais nobre que a do ancião Barreiro. Muito embora a garrafa presenteada seja infinitamente distante destas que compõe a decoração, ou a sua falta, destes bares “pé sujo” da Mistura, Baixinha ou Boiadeira.

AVelho Barreiro Diamond” de Obama vem embalada em uma garrafa com design francês, cravejada com 211 diamantes num total de 7.3 quilates, além do bafo e do papo do consumidor, armação em prata e ouro ao preço de 212 mil. Com todo este dengo etílico, tenho dúvidas se esta pinga metida a besta faça frente a uma Cabeceira do Rio, por exemplo, destilada sob a supervisão e cuidados de “Seo Beínha”, especialmente para o mano Juracy, companheiros de mesa e de rinha aos domingos no Bar Central.  

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Segunda Pele - Roberta Sá


Após um disco premiado e fartamente elogiado pela crítica, como Todo canto é reza, não deve ter sido fácil para Roberta Sá, uma das mais bonitas vozes da nova safra de cantoras de MPB, o lançamento do próximo disco. Deve ter persistido a dúvida se seguiria a linha de um disco dedicado a um único compositor, como o anterior, em que o repertório do excelente compositor baiano Roque Ferreira foi o escolhido, tendo a companhia luxuosa do Trio Madeira Brasil, violões e percussão, ou se partiria para algo novo, diferentemente daquele. E como era de se esperar de uma jovem e talentosa artista, Roberta Sá preferiu o salto no escuro, na crença de que uma carreira de artista não pode se prender a fórmula, a esquemas que deram certo e apostou no novo, ainda que cause estranhamento em quem ficou fissurado por Todo canto é reza e na capacidade musical e poética de Roque Ferreira. Melhor assim!    

Roberta se cercou de músicos jovens como ela e se não tão jovens pelo menos experimentais em busca do novo como Moreno Veloso, Dudu Falcão, Rubinho Jacobina, Domenico Lancellotti, Lula Queiroga, João Cavalcanti (Casuarina), do grupo Pedro Luis e a Parede, além do uruguaio Pedro Drexler que traz na bagagem uma premiação no Oscar. O resultado é agradável depois da primeira ou terceira audição, já que músicas como a Lua, Altos e baixos, Segunda Pele, O nego e eu, Pavilhão de espelhos, Arrebol passam a soar íntimas e a quase um passo do nosso MP4. Intimidade que se instaura com a regravação de Deixa sangrar, frevo de Caetano, gravado por Gal no disco LeGal de 1971 e, que Roberta mantém a pegada carnavalesca embora sem as guitarras distorcidas do tropicalismo.  

Foto: Roberta Sá

“Eu quero tchu, eu quero tchá"



Nada como a palavra escrita para revelar a patetice e o ridículo de certas construções ortográficas como esta que titula estas considerações e que tristemente vicejam na sub-música popular brasileira de nossos dias. Muito bem aproveitada, aliás, pelo espetáculo Los Catedrásticos – A nova poesia baiana em que bobagens como esta são postas em seu devido lugar – o lixo. “Eu quero tchu, eu quero tchá, eu quero tchu, tchá, tchá” deve ser irmã ou filha de “Segura o tchan, amarra o tchan” que detonou o processo degenerador da axé music e sua família bastarda.

O São João 2012, na cidade alegre, cuja realização ou não, tem suscitado discussões acaloradas nas redes sociais com argumentações que beiram o hilário e, o mesmo vazio do repertório de uma banda que esta programada para se apresentar como atração principal, fiel representante da linha do “eu quero tchu, eu quero tchá”. Talvez ai resida a euforia da juventude alegre e sua participação no debate sobre a festa, ainda que as autoridades municipais já tenham batido o martelo pela realização da mesma¸ tornando-se irrelevante a discussão. E aí, que falta d’água no chuveiro que nada, até porque a maioria é francesa, ecologicamente incorreta e, existe o banho de cuia, com cuia e sem água, a ameaça da dengue, as muriçocas, a falta de hospedagem, de locais para alimentação e o temor do visitante em se aproximar deste paiol de pólvora. Que venha, pois a festa, mais eleitoreira que muitos carros pipa, mais faminta que muitas cestas básica.         

terça-feira, 1 de maio de 2012

01.05.1981 - Riocentro - 31 anos depois


O governo militar nascido do golpe de 64, já sinalizava sua exaustão pondo em prática um processo de abertura do regime, em que a Lei da Anistia era o ponto mais visível, mesmo que impreciso em seus objetivos. Mas havia forças ocultas, mas nem tanto, que eram contrárias a esta distensão política e, nos subterrâneos das casernas tramavam contra a tal da abertura política costuradas por generais, por um momento da história, linha branda, como o Golbery do Couto e Silva.

A mais notória manifestação contra a abertura do regime se deu, mas não se consumou, com um atentado preparado por forças da repressão contra um show em comemoração ao primeiro de maio, no Riocentro, em 30 de abril de 1981. Artistas de ponta da MPB se apresentaram por horas seguidas até nascer o sol do dia 1º de maio de 1981. Chico Buarque, Beth Carvalho, João Nogueira, Alceu Valença, Clara Nunes, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Ivan Lins, Gonzaguinha, Jards Macalé e muito mais.

Do lado de fora, no estacionamento, um Puma com dois militares do DOI-CODI cumpriam uma missão desumana de fazer explodir dentro do Riocentro duas bombas cujo teor de detonação apenas um dele precisou. Já que uma das bombas explodiu no colo do militar que estava no banco do carona, enquanto a outra que explodiria na casa de força do Riocentro para interromper o fornecimento de energia, encerrando o show, mesmo explodindo não cortou a iluminação, nem foi percebida pela multidão de jovens que assistia o espetáculo. Caso o intento dos militares terroristas tivesse sido atingido, ainda hoje se lamentaria o número de mortes em um atentado perpetrado por militares “linha dura” que queriam o endurecimento ainda mais do regime.

Graças Deus, o céu fez justiça, justiçando quem de fato merecia. Mas a nodoa continua em cada Primeiro de Maio que se comemore, como manchou ainda mais o já nebuloso período da ditadura militar, que logo se esfacelaria de podre e de recusa por parte da população civil. 

Show do Riocentro - Ziraldo