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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Nobreza!

Em certas madrugadas o programa Planeta Rei do Beto Brito nas ondas da Rádio Globo-Rio, lhe leva a questionar, “o que é que eu tô fazendo aqui, que não vou dormir”? Esta foi uma dessas. Por ser um programa aberto em que insones das mais diversas partes do país ligam querendo ouvir tal e qual música, que são sempre dedicadas a parentes, ex-amores, amigos, amantes, esposas, filhos e, que nem sempre são agradáveis de aturar. Confesso que não queria ouvir, por exemplo, Wando, Agnaldo Timóteo, Roberta Miranda, Leonardo e similares, não por má vontade, ou impaciência, mas porque estas não são horas para que estes senhores soltem seus dós de peito, incomodando a vizinhança, arranhando a lei do silêncio, mas procurarem o caminho da cama e dormir, como não fiz.

Mão nada foi em vão. Pois logo depois Zizi Possi entraria no ar com a Nobreza de Djavan, uma canção de amigo, dedicada a Paulinho da Viola, exaltando a amizade e a paixão por quem é um monolito, um diamante ao sol, como o portelense autor de Amor à natureza, Foi um rio que passou em minha vida, Dança da solidão, Por um amor no Recife, Coração leviano etc.
Djavan, por um instante, esquece suas extravagâncias poéticas e dá o tom preciso e merecido a Paulinho da Viola em versos como: “Nossa velha amizade nasceu/Da luz que acendeu, aos olhos de abril/Com cuidado e espanto eu te olhei/No entanto você sorriu/Concedendo-me a graça de ver/Talhado em você, a nobreza de frente”
Foto: Paulinho da Viola

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A época de ouro do rádio.

Ainda é comum a identificação do intérprete como autor da obra que canta ou executa. Este é um antigo costume oriundo das emissoras de rádio em omitir o nome dos autores de uma música, ficando com o cantor ou cantora a associação àquela canção como se fosse uma criação dele ou dela. A minha condição radiofônica passou a mudar quando já estudante em Salvador e ouvinte cativo da Rádio Educadora AM e tempos depois em FM, uma das poucas a registrar o nome dos autores da canção que acabávamos de ouvir. Esta emissora foi responsável pelo meu enriquecimento musical, em especial um programa noturno comandado pelo Professor Cid Teixeira em que a música brasileira e seus criadores eram elevados a condição de poetas e mestres, dividindo com o interprete os louros da canção e não somente àquele como se via até então. Assim, Geraldo Pereira, Cartola, Guilherme de Brito, Newton Mendonça, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Victor Martins, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e tantos mais foram aos poucos sendo reconhecidos como parte do sucesso de determinado intérprete.

A ampliação desta cultura musical com base radiofônica também se deu graças a um uma espécie de palestras semanais realizadas no Instituto Cultural Brasil Alemanha – ICBA, no final da década de 60, pelo Professor e poeta Carlos Coqueijo Costa, com a participação do colunista social e pianista Sílvio Lamenha, enfocando a época de ouro do nosso rádio até a bossa nova e a figura emblemática de João Gilberto. Ali, a cada noite ouvíamos pequenas histórias e grandes sucessos de divas da canção brasileira como Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Isaurinha Garcia, Ângela Maria, Emilinha Borba, Marlene, as irmãs Batista, Linda e Dircinha, Nora Ney e mais, muito mais. Estes acontecimentos culturais foram decisivos na minha formação musical como ouvinte, curioso, leitor de biografias e, modestamente, pesquisador.
 
Foto: Dalva de Oliveira

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Do Caderninho ao Kama Sutra.


Mais uma vez, outra noite, insone ou não, ouvindo a Rádio Globo e os seus panoramas esportivos, transmissões de jogos (do Flamengo) ou o programa do Beto Brito e seu imenso e farto baú musical. Esta madrugada voltei a ouvir uma música de Erasmo cuja última audição deve estar datada na época da Jovem Guarda, a quarenta e lá vão pedras de anos atrás. Era o Caderninho e sua ingênua e pueril vontade de ser o receptador dos desejos e pensamentos de sua paixão na condição de ser o seu caderno; assim como o Chico, que quis ficar no corpo da amada feito tatuagem. São contextos e épocas distantes e uma poesia e um texto que intelectualmente não se tocam, nem sequer se tangenciam. São diferentes, mas iguais em minha admiração.

Tantos anos depois e, daquele Erasmo nem sombra. Desde que o Rei sentenciou “e que tudo mais vá pro inferno”, que Erasmo foi aos poucos descendo as escadarias opostas àquelas a que o Rei subia, até desaguar na rebeldia e na transgressão do rock. Graças a Deus! Então, daquela docilidade do Caderninho até o CD Sexo de 2012, muito rock rolou sob a ponte, como a faixa Kama Sutra deste disco, onde Erasmo lista as posições de fazer amor, recorrendo a verbos que não cabem (ou cabem!) muito bem numa frase musical, muito menos poética. Erasmo sim; é o cara!

Foto: O Rei, Wanderléa e Erasmo