quarta-feira, 27 de março de 2013

Um túnel no fim da luz!

Muitos foram os jornalistas, professores universitários, escritores, intelectuais perseguidos pela ditadura militar e impedidos de exercer a sua atividade, ou por estarem presos ou por serem afastados de suas funções sem qualquer explicação ou fundamentação pública para o ato arbitrário. Restabelecido o Estado de Direito muitos foram os que bateram à porta deste mesmo Estado para reivindicar uma indenização pela perda sofrida, em decorrência do cerceamento de sua liberdade no exercício de sua profissão. As controvérsias não tardaram a surgir em torno da decisão do Presidente Fernando Henrique Cardoso que regulamentou através de decreto esta indenização, ele mesmo um beneficiário.
 
Pessoas conhecidas de todos nós se beneficiaram do decreto e partiram para a reivindicação dos direitos usurpados, gerando críticas mesmo daqueles que poderiam ter entrado no rol dos beneficiados, mas preferiram a condenação ao recebimento das polpudas verbas indenizatórias.

Em recente entrevista na Revista da Cultura, o sempre brilhante e lúcido Carlos Heitor Cony fala da sua condição de indenizado, defendendo como justa este reconhecimento do estado ao impedimento, mesmo que temporário, de sua atividade jornalística. Ao contrário de Cony, o também eternamente brilhante, Millôr Fernandes, nunca poupou críticas aos que caíram de boca nas tetas do estado pegando a sua parte indenizada, afirmando “que não sabia que lutar contra ditadura era uma forma de investimento financeiro”. Muitos como Millôr, outros tantos como Cony se beneficiaram ou recusaram este investimento financeiro que tantos constrangimentos e polêmicas ainda hoje repercutem.
 
Ser contra um regime de exceção é muito mais um gesto de coragem, de crença em seus princípios democráticos que propriamente uma aplicação financeira; coragem e crença que talvez tenha faltado ao Millôr por ter sido o único membro do Pasquim a não ser preso em 1970, como foram todos os seus colegas de redação ou colaboradores.

Desenho: Millôr p/Cássio Loredano

Nenhum comentário:

Postar um comentário