quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Ah mô fio do jeito que suncê tá...


Havia ou há em uma cidade do Rio Grande do Sul, um vidente que atende seus clientes de modo virtual, pela internet. O necessitado passa um e-mail para o pai “qualquer coisa”, contando suas mazelas físicas, emocionais, financeiras e recebe de volta um boleto para pagamento e o relatório contendo seus próximos passos, seus procedimentos em busca do fio da meada de sua vida, de seu novelo desgrenhado. Os mais ansiosos, mais imediatistas, mais afeitos aos conceitos da informática utilizam o MSN e têm na hora seu consolo, sua cura e o seu boleto bancário. Aí daquele que não pagar a consulta, pois sua vida jamais voltará aos trilhos e será para sempre um trem descarrilado.

Não sei como nestes novos tempos virtuais se comportariam Dona Terta e sua escudeira e filha, irmã Joaninha ou Dona Loura e Seo Zé já que suas armas de persuasão e cura como os galhos de arruda, os atabaques e o sangue de bode não se encaixariam nestas novas formas de atendimento espiritual e religioso. Quem sabe a utilização de um webcam pudesse minorar o impacto da encenação, mas aí seria pedir demais para cabeças tão distantes destas modernidades e de costas para um ritual cuja teatralidade só funciona ao vivo.

Talvez os novos mestres das forças ocultas e do esoterismo aqui na cidade alegre pudessem modernizar os seus atendimentos e adequá-los às novas técnicas de informatização, mas não creio que eles venham dispensar o cara a cara, o mano a mano, olho no olho como se exige das cartas e dos búzios sobre a mesa. Mãe Vanda de Aruanda que atende na Baixinha, por exemplo, não colocaria seu currículo de 3.000 trabalhos abrindo caminhos, trazendo amores perdidos, praticando curas de moléstias incuráveis pudesse mudar a forma de receber seus clientes, ali em sua tenda branca, cheirando a seiva de alfazema. Tampouco Madame Geilza seria incapaz de colocar a sua espiritualidade, sua credibilidade em Mundo Novo e Ipirá, onde passado, presente e futuro passam a ter uma nova formatação, um novo conceito de vida, tudo ao mesmo tempo agora ou seu dinheiro de volta. Assim como o Mago Vange criador do xarope Mel de Mangangá, que segundo Gilson Santana, apresentador do programa mais “bagaça” da radiofonia baiana, Top Brega, a panaceia é capaz de levantar moral, reputação, ibope, até bandeira arreada, além de retirar nome do SPC e SERASA. E a lista não para por aí, como o nome de Pai Mauricio de Ogum, que atende em Barra de Mundo Novo cujas especialidades são briga de vizinhos, recuperação de dívidas, pendências jurídicas, traições, olho gordo enfim, têm prá todos os gostos e dificuldades que se atravessa.

Com todo este leque de espiritualidade posta à mesa é incompreensível que um líder político local recorra às mães de santo de Cachoeira em busca da saúde perdida, da simpatia nunca cultuada e da vitória de seu candidato-mala, em flagrante desprestigio as forças ocultas e esotéricas da cidade alegre ou próximas dela, principalmente para quem alardeia amar a cidade. Não parece e, em represália, as forças ocultas, esotéricas e escancaradas locais, bem que poderiam soltar os cachorros, os bodes, as cartas, os búzios, os ebós, sobre ele.  

Foto: Chico Anysio (caracterizado como Painho)  

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