quinta-feira, 3 de abril de 2014

Ao mestre com carinho.

Qual o interesse ou a motivação que possa despertar um disco de regravações de músicas como O Pato, Tim tim, por tim tim, Você e eu, Desafinado, Aos pés da cruz, imortalizadas que foram por registros definitivos de João Gilberto? Pois é, aí está a resposta ao aparente enigma em seu mais novo disco Gilbertos Samba uma homenagem ao repertório do mestre João por um dos seus tantos discípulos, como Gilberto Gil. 

E Gil, nesta altura do campeonato se permite tudo. Ele que já prestou reverência a Bob Marley ou Luis Gonzaga com releituras de suas canções, agora se põe em frente ao legado de João com a competência de quem se viu aos 17 anos embevecido e intrincado com os acordes e as dissonâncias criadas pelo ícone da bossa nova. 

Se o tributo fosse prestado a 20 ou 30 anos atrás provavelmente teria encontrado a voz de Gil sem as marcas do tempo e dos excessos em interpretações cheias de vocalises, gritos, buscas desnecessárias de sonoridades graves e agudas para a sua voz, o que lhe causou calos e perda de vigor e viço na sua musicalidade. Fato que Caetano lhe chamou a atenção algumas vezes, para que evitasse os excessos a que estavam expostas as suas cordas vocais, pereceptíveis nestas gravações de seu novo disco, onde a voz não alcança certos graves pretendidos, mas a Gil é permitido tudo, até mesmo os desacertos.

Não quero com isto dizer que o disco seja uma má empreitada, pois não é, especialmente pelo violão de mestre que poderia até prescindir do acompanhamento percussivo e de cordas dos jovens músicos que lhe seguem como Pedro Sá, Rodrigo Amarante, Domênico Lancellotti e mesmo assim seria prazeroso voltar a ouvir Desde que o samba é samba, Doralice, Milagre, Eu sambo mesmo, Eu vim da bahia, nesta produção de seu filho Bem Gil e de Moreno Veloso, filho de Caetano.

Foto: Gil

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