quarta-feira, 18 de março de 2015

De dentes bem arreganhados


Vai passar nessa avenida um samba popular/ cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar”, cantava sozinho no asfalto da Avenida Paulista um senhor idoso, grisalho, corpulento. No tempo em que nossos caminhos se cruzaram, a cantoria não chegou ao verso que diz que “o estandarte do sanatório geral vai passar”. Mas era disso que se tratava o teatro de 15 de março de 2015, no qual a minoria branca paulista finalmente mostrou seus dentes arreganhados empapados de baba coagulada.

Senão, vejamos. Eleitor e reeleitor da presidenta Dilma Rousseff, o adorado sambista-emepebista Chico Buarque lançou “Vai Passar” em 1984, usando o mote em samba-enredo como metáfora para a campanha pela redemocratização pós-ditadura civil-militar do Brasil com S. Quem ia passar, nas primaveras de 1984, éramos nós, brasileiros com S, livres finalmente dos coturnos, das torturas de porão e da matilha de manietadores estrangeiros de generais braZileiros com Z.

Transcorridos 31 anos da canção de porvir de Chico, o senhor rotundo a canta circundado por atmosfera opressora, direitiça, grávida de ódio e dentes brancos arreganhados. Os cartazes ao redor dele não pedem, antes exigem uma “intervenção militar constitucional” – o estandarte do sanatório geral, no registro oposto ao pretendido pelo sambista esquerdista de olhos azuis.

Fonte: Farofafá

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